Sou estudante de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e, em meados de maio de 2020, decidi que meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) seria um livro-reportagem sobre mortalidade materna por Covid-19 no Brasil. As manchetes nos jornais a respeito de grávidas e puérperas vítimas da doença começavam a se avolumar dia após dia e eu queria contribuir para preservar a memória dessas vítimas da pandemia, além de discutir tal panorama a partir de dados e estatísticas.
Ainda em 2020, estudos começaram a apontar que fatores como má qualidade dos serviços de pré-natal e falta de recursos de emergência poderiam estar contribuindo para uma proporção significativa das mortes maternas pelo coronavírus no país. Mas foi só em abril de 2021, com o lançamento do Observatório Obstétrico Brasileiro Covid-19 (OOBr Covid-19), que eu consegui visualizar o que estava acontecendo com essas mulheres de forma mais ampla e didática. Ao acessar o painel na primeira semana de abril, logo no início do projeto, foi possível constatar que 9.479 casos de internações por Covid-19 entre gestantes e mulheres no pós-parto haviam ocorrido no país desde março de 2020, com 738 mortes. A média semanal de óbitos já era mais do que o dobro do ano anterior: passou de 10,4 óbitos em 43 semanas de pandemia em 2020 para 22,2 nas primeiras semanas de 2021. Atualmente, sabe-se que ao menos 1.936 grávidas e puérperas com SRAG confirmado pela doença morreram no Brasil, e que uma a cada cinco delas não teve acesso a unidades de terapia intensiva (UTI), bem como 32,3% não foram intubadas.
Dados do OOBr Covid-19 também chamaram a atenção para as disparidades regionais no acesso à assistência adequada: enquanto no Pará 42% das mortes maternas ocorreram fora da UTI, no Rio Grande do Sul 7% dos óbitos se deram nessas condições. E para as disparidades raciais: tanto em 2020 quanto em 2021, mulheres grávidas e no pós-parto pretas foram as que mais morreram, correspondendo a 12% e 17% dos óbitos, respectivamente.
Todas essas informações foram de suma importância para o meu livro-reportagem, sobretudo para contextualizar a tragédia das mortes maternas por Covid-19 no Brasil. O perfil dinâmico e acessível da plataforma permitiu com que eu, uma estudante de Jornalismo pouco familiarizada com estatística, navegasse pelos números e análises sem dificuldades.
Por isso, acredito que o observatório é uma ferramenta com potencial não só para influenciar na criação de políticas públicas direcionadas à redução da mortalidade materna, mas também para democratizar o acesso de dados sobre saúde materno-infantil entre profissionais da imprensa, um diálogo duplo que considero essencial para a construção da ação coletiva.