Saúde mental precisa fazer parte do pré-natal e do cuidado após o parto

10/10/2026

Notícia

O acompanhamento pré-natal costuma ser associado à realização de exames, ao monitoramento do desenvolvimento do bebê e à identificação de possíveis complicações clínicas. Mas há uma dimensão da gestação que nem sempre recebe a mesma atenção: a saúde mental. Ansiedade, tristeza persistente e mudanças no comportamento podem interferir na rotina da gestante e na própria continuidade do acompanhamento médico. Depois do parto, o sofrimento psíquico também pode comprometer o bem-estar da mulher e os cuidados com o recém-nascido.

A transição para a maternidade envolve mudanças físicas, emocionais, familiares e econômicas. A maneira como cada mulher atravessa esse período depende, entre outros fatores, das condições de vida e do apoio que recebe. Para o obstetra Marco Aurélio Galletta, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), essas transformações tornam importante investigar a saúde mental desde a gestação, e não apenas quando surgem dificuldades mais evidentes.

“Quando você não faz um diagnóstico adequado de transtornos mentais, de saúde mental durante a gravidez, você vai ter complicações da própria gravidez, porque acaba não tendo assistência adequada”, afirma Galletta.

O sofrimento psíquico pode dificultar atividades cotidianas e até o comparecimento às consultas. O médico relata o caso de uma paciente que passou três meses sem ir ao acompanhamento pré-natal porque não encontrava motivação para sair de casa. A situação ilustra como problemas de saúde mental podem se refletir no cuidado durante a gravidez, além de reforçar a importância de as equipes investigarem as condições emocionais das pacientes.

Entre a ansiedade e a depressão

A gravidez não produz a mesma experiência emocional para todas as mulheres. Sentimentos ambivalentes, insegurança e preocupação podem fazer parte desse período, mas a persistência ou a intensidade dos sintomas merece atenção. É necessário distinguir as oscilações emocionais esperadas das manifestações que indicam a necessidade de avaliação profissional.

Segundo Galletta, sintomas depressivos durante a gestação podem atingir cerca de 20% das mulheres, enquanto manifestações de ansiedade são estimadas entre 10% e 20%, a depender da população estudada e dos critérios utilizados.

Esses percentuais se referem a sintomas e não significam, necessariamente, que todas essas mulheres tenham um diagnóstico clínico de depressão ou transtorno de ansiedade.

A identificação do problema também depende da possibilidade de a mulher falar sobre o que está sentindo. O receio de ser julgada, a expectativa de que a maternidade seja necessariamente um período de felicidade e o desconhecimento dos sinais de sofrimento podem dificultar a procura por ajuda. Por isso, a avaliação não deve depender exclusivamente de a gestante relatar espontaneamente os sintomas.

As condições sociais e familiares também integram esse quadro. Relações conflituosas, violência, falta de apoio do parceiro ou da família, dificuldades econômicas e histórico pessoal ou familiar de depressão podem estar associados ao sofrimento psíquico no período perinatal. Esses fatores não determinam, isoladamente, o desenvolvimento de um transtorno, mas ajudam a compreender por que a saúde mental precisa ser considerada no contexto de vida de cada mulher.

O que muda depois do parto

O nascimento do bebê não encerra a necessidade de acompanhamento emocional. O puerpério traz novas demandas, alterações na rotina e desafios relacionados à recuperação física, ao sono e à adaptação aos cuidados com a criança. Nesse período, é importante diferenciar o baby blues da depressão pós-parto, embora a avaliação de cada caso caiba a profissionais de saúde.

O baby blues costuma envolver maior sensibilidade emocional, choro fácil, irritabilidade e oscilações de humor nos primeiros dias depois do nascimento. Em geral, essas manifestações são transitórias e tendem a diminuir em cerca de duas semanas. A depressão pós-parto, por sua vez, pode provocar sofrimento mais intenso e persistente, com prejuízos para as atividades cotidianas e para o cuidado consigo mesma e com o bebê.

“Na depressão, a mãe não consegue cuidar direito da criança, não consegue cuidar direito dela mesma, não consegue cuidar da casa, não consegue conversar com as pessoas. Essa situação é diferente”, explica Galletta.

Os sinais nem sempre aparecem imediatamente após o nascimento. De acordo com o médico, a depressão pode persistir desde a gestação ou manifestar-se ao longo do primeiro ano depois do parto. Isso significa que o acompanhamento não deve se restringir às primeiras consultas do puerpério.

O reconhecimento do sofrimento também exige iniciativa dos profissionais. “A gente sabe que a maioria delas não fala o sintoma no pós-parto. Então, a gente tem que ir atrás, tem que investigar, tem que cutucar um pouco, ver se está tudo bem”, reforça o obstetra.

Tratamento medicamentoso exige avaliação individual

O receio de que medicamentos possam afetar o desenvolvimento do bebê pode levar algumas gestantes a adiar ou interromper tratamentos para depressão sem orientação profissional. A decisão sobre o uso de antidepressivos durante a gravidez, no entanto, exige uma avaliação individualizada, que considere a condição clínica de cada gestante e os riscos e benefícios das alternativas disponíveis.

Para o médico, é importante que as gestantes não considerem a suspensão ou a redução da dose como opções automaticamente mais seguras. “Do lado da paciente, eu acho que é importante que ela saiba que, quando é bem indicada, essa medicação é segura e é importante usar”, declara.

O obstetra chama a atenção para as consequências da depressão não tratada, que pode comprometer o bem-estar e dificultar a continuidade do pré-natal e o controle de outras condições de saúde. A escolha do tratamento deve considerar a intensidade dos sintomas, o histórico clínico e as necessidades de cada paciente.

Isso não significa que todos os medicamentos sejam indicados para todas as gestantes. A decisão de iniciar, manter, ajustar ou interromper qualquer tratamento deve ser tomada com os profissionais responsáveis pelo acompanhamento. Gestantes que já fazem uso de medicação para depressão, TDAH ou outras condições devem conversar com a equipe de saúde assim que descobrirem a gravidez, sem modificar o tratamento por conta própria.

O que a pandemia revelou sobre a saúde mental materna

A pandemia de Covid-19 trouxe desafios adicionais para as gestantes e puérperas. Além do medo da infecção pela doença, havia preocupações com a disponibilidade de leitos, a possibilidade de o bebê contrair a doença e as restrições à presença de acompanhantes durante a internação para o parto. Um cenário que gerou medo e insegurança.

Galletta relata que, em uma pesquisa realizada naquele contexto, sua equipe observou uma relação entre a exposição a notícias e os níveis de ansiedade das participantes. Segundo ele, contato com informações inadequadas, rumores e relatos recebidos de conhecidos estava associado a mais estresse do que o acesso a informações provenientes de fontes oficiais.

“Quando eram notícias adequadas, tinha menos ansiedade”, afirma o obstetra ao comentar os resultados observados pela equipe.

A experiência reforça a importância de oferecer informações confiáveis e acessíveis durante a gestação, especialmente em períodos de incerteza. Também mostra que o cuidado em saúde mental não depende apenas do atendimento clínico: as condições da assistência, a possibilidade de contar com apoio e o ambiente informacional fazem parte da experiência vivida pelas mulheres.

Os resultados relatados pelo médico se referem ao contexto estudado durante a pandemia e não devem ser generalizados para todas as gestantes ou situações. Ainda assim, ajudam a ilustrar como fatores externos à condição clínica podem influenciar o bem-estar emocional e a percepção de segurança durante a gravidez e o parto.

O papel da rede de apoio

A assistência à saúde mental não se limita à identificação de sintomas ou ao encaminhamento para atendimento especializado. O apoio cotidiano pode ajudar a reduzir a sobrecarga que muitas mulheres enfrentam durante a gestação e depois do nascimento da criança.

Tarefas domésticas, preparo de refeições e cuidados com o bebê podem se somar à recuperação física e às mudanças emocionais do puerpério. Quando essas responsabilidades ficam concentradas na mulher, a ausência de ajuda pode agravar as dificuldades. O apoio, por outro lado, não precisa se restringir a conversas sobre sentimentos: também pode se traduzir em ações práticas.

“Quando tem alguém ali: ‘Filha, estou aqui. Eu vou cuidar ali da cozinha, vou dar uma ajeitada, vou fazer a comida para você’, pronto, já dá uma relaxada”, diz Galletta.

A rede de apoio, porém, não substitui o acompanhamento profissional quando há sinais de um transtorno mental. Cabe à equipe de saúde avaliar as manifestações, orientar a mulher e definir, junto com ela, as condutas necessárias. Mulheres que já fazem tratamento em saúde mental devem discutir com os profissionais qualquer decisão sobre medicamentos, sem interromper o uso por conta própria.

A saúde mental no acompanhamento pré-natal

A saúde mental é parte integrante do cuidado durante a gestação e o puerpério. A Caderneta da Gestante, do Ministério da Saúde, reúne orientações sobre as emoções e as mudanças psicológicas que podem acompanhar esse período. O material reconhece que a gravidez pode despertar sentimentos diversos e ressalta a importância de compartilhar preocupações, dificuldades e alterações emocionais com a equipe de saúde.

Essa abordagem amplia a compreensão do pré-natal para além dos exames e das condições físicas da gestante. Investigar como a mulher está se sentindo, identificar mudanças persistentes de comportamento e considerar suas condições familiares e sociais são medidas importantes para reconhecer necessidades de cuidado e oferecer acompanhamento adequado.

Sintomas intensos ou persistentes, especialmente quando interferem nas atividades cotidianas, devem ser avaliados por profissionais de saúde. Em situações de risco imediato, como pensamentos suicidas ou de machucar a si mesma ou o bebê, é fundamental buscar atendimento de urgência.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 10% das gestantes e 13% das mulheres no pós-parto apresentem algum transtorno mental, principalmente depressão. Para países em desenvolvimento, a instituição aponta estimativas de 15,6% durante a gestação e 19,8% no período pós-parto. Esses números reforçam a dimensão do problema, embora as estimativas possam variar conforme a população e os métodos utilizados nos estudos.

Os registros de mortalidade e os limites dos indicadores

A necessidade de atenção à saúde mental também aparece nos registros de óbitos por lesões autoprovocadas. Dados do Observatório Obstétrico Brasileiro (OOBr) para o estado de São Paulo identificaram 51 óbitos desse tipo entre 2019 e 2024.

Do total, 23 ocorreram durante a gestação, o parto ou o aborto. Outros 28 foram registrados no período posterior: seis até 42 dias após o parto e 22 entre 43 dias e menos de um ano.

Óbitos não classificados como Morte Materna
Período Número de óbitos
Durante a gestação, o parto ou o aborto 23
Até 42 dias após o parto 6
De 43 dias a menos de um ano após o parto 22
Total 51

Fonte: Painel ReMaP: extrações sobre óbitos por lesões autoprovocadas entre gestantes e puérperas residentes no estado de São Paulo, 2019-2024.

Esses óbitos são classificados como causas externas e, por isso, não integram o conjunto de mortes maternas contabilizadas no painel. A classificação estatística não significa que a saúde mental seja irrelevante para a análise desses casos, mas indica que eles são registrados separadamente dos óbitos classificados como mortes maternas. Para saber mais sobre esses registros, consulte a publicação Saúde mental: cuidar também é escutar, do OOBr, que apresenta uma tabela de dados e um vídeo tutorial sobre como localizar os registros de mortalidade autoprovocada no painel ReMaP.

Os dados, por si só, não permitem determinar as circunstâncias de cada morte nem concluir que ela tenha sido causada por depressão ou pela ausência de acompanhamento. Ainda assim, mostram a importância de observar os registros para além dos indicadores tradicionais de mortalidade materna e de considerar o período posterior ao parto nas políticas de cuidado.

Para Galletta, a continuidade da assistência é essencial para que mulheres com sofrimento psíquico não fiquem sem acompanhamento. Reconhecer os sintomas, avaliar a necessidade de tratamento e articular os serviços de saúde com a rede de apoio são medidas que integram o cuidado durante a gestação e depois do nascimento. A saúde da mulher não se limita às alterações físicas da gravidez: suas necessidades emocionais também precisam ser identificadas e acompanhadas ao longo desse percurso.


Referências

BRASIL. Ministério da Saúde. Caderneta brasileira da gestante. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/saude-da-mulher/publicacoes/caderneta-brasileira-da-gestante.pdf. Acesso em: 9 out. 2026.

BRASIL. Ministério da Saúde. Depressão pós-parto. Brasília, DF: Ministério da Saúde, [s. d.]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/d/depressao-pos-parto. Acesso em: 4 out. 2026.

GALLETTA, Marco Aurélio Knippel; HASHIMOTO, Adriana Sayuri; ESTRAMBK, Gabriel de Almeida; VERARDO, Isabela Pinto Soares; CANTAGALLI, Maria Helena Istake; PERES, Stela Verzinhasse; FRANCISCO, Rossana Pulcineli Vieira. Prevalence of postpartum depression in the COVID-19 pandemic and associated factors: systematic review and meta-analysis. BMC Pregnancy and Childbirth, 2026. DOI: https://doi.org/10.1186/s12884-025-08262-z.

OBSERVATÓRIO OBSTÉTRICO BRASILEIRO (OOBr). ReMaP: extrações sobre óbitos por lesões autoprovocadas entre gestantes e puérperas residentes no estado de São Paulo, 2019–2024. [S. l.]: OOBr, 2026. Disponível em: https://observatorioobstetricobr.shinyapps.io/remap/. Acesso em: 5 out. 2026.

WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). WHO recommendations on maternal and newborn care for a positive postnatal experience. Geneva: World Health Organization, 2022. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240045989. Acesso em: 4 out. 2026.