Saúde mental: cuidar também é escutar

30/09/2026

Notícia

Gestação, parto e puerpério são períodos de intensas transformações físicas, emocionais e sociais. Expectativas e alegria podem conviver com medo, insegurança, ambivalências, cansaço e sofrimento emocional. Essas experiências podem assumir diferentes formas e intensidades ao longo desse período.

Falar em saúde mental perinatal é considerar também essas dimensões da gestação e do pós-parto. Mais do que identificar a presença ou ausência de determinados sentimentos, o cuidado envolve compreender como cada pessoa vivencia essas mudanças e reconhecer quando pode ser necessário apoio.

Cuidar da saúde durante a gestação e após seu término também inclui a saúde mental.

Para interpretar os dados, é importante entender como esses óbitos são classificados. Considera-se morte materna o óbito ocorrido durante a gestação ou até 42 dias após seu término, por causas relacionadas ou agravadas pela gestação ou por seu manejo. Nessa definição, não estão incluídas as causas acidentais ou incidentais.

Os óbitos por causas externas, como as lesões autoprovocadas, podem ocorrer durante a gestação, o parto, o aborto ou após o término da gestação, mas não são classificados como mortes maternas. No painel do Observatório Obstétrico Brasileiro (OOBr), eles integram o conjunto de óbitos não classificados como mortes maternas.

Entre 2019 e 2024, foram registrados 51 óbitos por lesões autoprovocadas entre gestantes e puérperas residentes no estado de São Paulo. Desse total, 23 ocorreram durante a gravidez, o parto ou o aborto; 6, no puerpério, até 42 dias após o término da gestação; e 22, entre 43 dias e menos de um ano após o término da gestação.

Raça/cor Óbitos por lesões autoprovocadas Participação entre os 51 óbitos Participação estimada entre os nascidos vivos
Branca 27 52,90% 52,90%
Parda 17 33,30% 38,50%
Preta 6 11,80% 7,50%
Amarela 1 2,00% 0,50%
Indígena 0 0,00% 0,10%
Total 51 100,00% 100,0%*

Entre 2019 e 2024, foram registrados 51 óbitos por lesões autoprovocadas entre gestantes e puérperas residentes no estado de São Paulo. A tabela descreve a distribuição dos registros por raça/cor e a compara à participação estimada de cada grupo entre os nascidos vivos no período.

Esses dados, por si só, não permitem conhecer as circunstâncias ou os fatores envolvidos em cada caso, nem estabelecer uma relação de causa e efeito entre a gestação, o puerpério e os óbitos registrados. Ainda assim, os registros podem contribuir para ampliar a discussão sobre saúde mental perinatal e sobre a importância de oferecer escuta, cuidado e apoio ao longo da gestação e do puerpério.

Nem toda mudança emocional significa sofrimento psíquico

A gestação e o pós-parto são períodos de intensas transformações. Oscilações emocionais podem fazer parte dessa experiência, mas isso não significa que aquilo que a pessoa sente deva ser ignorado.

Algumas experiências ajudam a compreender a importância dessa atenção:

Baby blues: período de maior sensibilidade emocional, com choro fácil, irritabilidade ou oscilação de humor, frequente nos primeiros dias após o parto e geralmente transitório.

Depressão pós-parto: quando tristeza intensa, desânimo, ansiedade, culpa ou dificuldade de realizar atividades cotidianas persistem ou se intensificam, sendo importante buscar avaliação e cuidado em saúde.

Além dessas experiências, ansiedade, esgotamento, violência, solidão e dificuldades sociais também podem atravessar a gestação e o puerpério. Reconhecer os sinais de sofrimento e acolher quem os vivencia faz parte de uma assistência integral e respeitosa.

Para aprofundar esse tema, conversamos com Renata Bolibio, psicóloga da Divisão de Psicologia do Instituto Central do HCFMUSP, que atua na Clínica Obstétrica, sobre as transformações emocionais durante a gestação e o puerpério, os sinais que podem indicar a necessidade de apoio profissional, o papel da rede de apoio e a importância de uma escuta acolhedora e sem julgamentos.

A partir dessa perspectiva, a atenção à saúde mental não está apenas na presença ou ausência de determinado sentimento, mas também em como ele é vivido, considerando sua intensidade, duração e impacto na vida cotidiana. Como explica Renata, mesmo sentimentos comuns durante a gestação e o puerpério merecem ser acolhidos, compreendidos e, quando necessário, acompanhados.

Por que a saúde mental precisa fazer parte do cuidado durante a gestação e o puerpério?

Quando refletimos sobre o processo gestacional, o parto e o nascimento de um filho, identificamos que as transformações acontecem no corpo, nas emoções, na família e nas relações sociais. Esse processo pode ser vivenciado como um período de felicidade, mas também pode envolver sentimentos de ambivalência, medo e insegurança.

Oferecer uma escuta técnica para essa experiência permite que essas pessoas possam falar sobre o que estão vivendo, refletir sobre suas escolhas, sobre a forma como se posicionam diante das mudanças e sobre como estão construindo sua experiência de maternidade.

Por ser um momento que implica a reorganização da vida, das relações e dos planos de futuro, o cuidado em saúde mental não precisa estar restrito às situações em que o sofrimento já se intensificou. Ele pode ser oferecido de forma preventiva, como parte do cuidado integral, favorecendo que a pessoa encontre recursos psíquicos para atravessar as transformações próprias desse período.

Quais mudanças emocionais podem ser esperadas nesse período e quais sinais indicam que a pessoa pode precisar de apoio profissional?

É esperado que existam oscilações emocionais durante a gravidez. A literatura pontua que o sentimento de ambivalência faz parte da experiência psíquica de gestar. Mas não é porque determinada experiência é esperada que ela não deva ser ouvida, compreendida e cuidada.

Não se trata apenas do que se sente, mas de como esse sofrimento é vivido, de sua intensidade, duração e dos prejuízos que pode produzir na vida cotidiana.

Algumas referências da Psicologia compreendem a gestação como um período de maior regressão psíquica e maior mobilização emocional. Ao mesmo tempo, ao longo da vida, desenvolvemos recursos psíquicos que nos ajudam a lidar com situações de mudança, perdas, conflitos e incertezas. Por isso, é importante considerar tanto as vulnerabilidades quanto os recursos psíquicos de cada pessoa e sua rede de apoio disponível.

Devemos estar atentos a sinais como tristeza persistente, perda de interesse ou prazer em atividades que antes eram significativas, ansiedade ou preocupações difíceis de controlar, irritabilidade, culpa excessiva ou sensação de incapacidade, isolamento social, dificuldades importantes no autocuidado, alterações significativas de sono ou apetite, dificuldade na construção do vínculo afetivo com o bebê, pensamentos de morte, autoagressão ou heteroagressão*.

A presença desses sinais não significa, por si só, que há um diagnóstico. Eles indicam a necessidade de uma escuta e de uma avaliação técnica cuidadosa. O acompanhamento psicológico pode contribuir para compreender o sofrimento, identificar recursos e necessidades e, quando necessário, construir o cuidado em articulação com outros profissionais da saúde.

* Realização de atos destrutivos, violentos ou prejudiciais direcionados ao mundo exterior ou a outras pessoas.

Na prática, o que familiares e pessoas próximas devem observar?

A rede de apoio é fundamental porque, muitas vezes, é quem conhece a pessoa para além daquele momento. São pessoas que podem perceber o “antes e depois” e identificar mudanças na forma como ela se relaciona consigo mesma, com os outros e com a experiência da gestação e da maternidade.

O objetivo não é que familiares e pessoas próximas estejam vigilantes ou procurando sinais de doença, mas que estejam suficientemente próximos para perceber mudanças e disponíveis para escutar. Mudanças importantes de comportamento, isolamento, tristeza persistente, irritabilidade, ansiedade intensa, sensação de incapacidade ou dificuldade de cuidar de si podem indicar que algo está sendo difícil demais para aquela pessoa.

E, muitas vezes, o sofrimento está justamente localizado no “não dito”. Podemos ter dificuldade de pedir ajuda, medo de sermos julgados ou até dificuldade de reconhecer e nomear aquilo que estamos sentindo. Por isso, ter alguém presente, que consiga perguntar genuinamente “como você está?” e permanecer disponível para ouvir sem julgamentos, já é uma importante oportunidade de cuidado.

A rede de apoio também pode oferecer ajuda concreta. Nem sempre é necessário encontrar a solução para o sofrimento; às vezes, estar presente, dividir tarefas, acompanhar uma consulta ou simplesmente criar um espaço seguro para que aquela pessoa possa falar já faz uma diferença importante.

Como acolher alguém que diz estar muito cansada, triste ou ansiosa?

O ato de acolher implica oferecer escuta, suspender julgamentos e não diminuir ou tentar corrigir imediatamente o sentimento que foi apresentado.

Dizer que “é normal”, “todo mundo passa por isso” ou “você precisa ser forte pelo bebê” pode parecer uma tentativa de tranquilizar, mas muitas vezes acaba silenciando quem está sofrendo.

Existem formas mais cuidadosas de se aproximar: “Estou percebendo que está difícil para você. Quer me contar um pouco sobre isso?”, “Você não precisa dar conta de tudo sozinha. Vamos pensar juntas em alguma coisa que possa aliviar um pouco este momento?”.

Acolher também significa reconhecer que aquilo que está sendo vivido tem um sentido para aquela pessoa, mesmo que nós não compreendamos completamente a experiência.

Acolhimento não é, necessariamente, oferecer uma resposta ou encontrar uma solução imediata. É poder sustentar a escuta, propor uma reflexão, estar disponível e permanecer ao lado. Quando necessário, também é ajudar essa pessoa a reconhecer que pode precisar de outros cuidados e acompanhá-la na busca por ajuda.

Quando é importante procurar um serviço de saúde?

Como o sofrimento psíquico é uma experiência individual e subjetiva, não existe um único momento que determine quando alguém deve procurar ajuda. É importante considerar a intensidade, a duração e o impacto desse sofrimento na vida cotidiana.

A procura por um serviço de saúde pode acontecer quando a pessoa percebe que está tendo dificuldades para lidar com o que sente, quando o sofrimento interfere significativamente na rotina e quando começa a comprometer a possibilidade de vivenciar a gestação ou o puerpério de maneira minimamente satisfatória.

Não é necessário esperar que o sofrimento se torne insuportável ou que apareçam prejuízos importantes para buscar cuidado. A própria percepção de que algo não está bem já pode ser um motivo para procurar ajuda.

Como os profissionais de saúde podem favorecer que gestantes e puérperas se sintam seguras para falar?

A primeira tarefa é perguntar. Não podemos esperar que uma pessoa em sofrimento tome a iniciativa de dizer que não está bem. Muitas vezes, ela não sabe como nomear o que está sentindo, tem medo de ser julgada ou acredita que deveria conseguir lidar sozinha com aquilo que está vivendo.

Perguntas simples podem abrir espaço para essa conversa: “Como você tem se sentido emocionalmente?”, “Como tem sido para você viver essa gestação?”, “Você consegue conversar com alguém sobre como está se sentindo?”, “O que tem sido mais difícil neste momento?”.

A segunda tarefa é saber ouvir. Mais do que fazer perguntas, é preciso estar disponível para escutar aquilo que aparece, sem julgamentos, sem minimizar a experiência e sem transformar imediatamente o que foi dito em um diagnóstico ou encaminhamento.

Também é responsabilidade do profissional conhecer os recursos disponíveis na rede e o trabalho das diferentes áreas da saúde, para que possa, quando necessário, articular o cuidado com outros profissionais.

Para que alguém se sinta seguro para falar sobre sofrimento emocional, o profissional precisa oferecer escuta, privacidade, linguagem não julgadora e continuidade. A pessoa precisa perceber que aquilo que diz será acolhido com respeito e que ela não ficará sozinha depois de revelar uma experiência difícil.

Em saúde mental, muitas vezes, a qualidade do cuidado começa antes de qualquer intervenção: começa na forma como olhamos, perguntamos, na maneira como escutamos e no espaço que oferecemos para que o outro possa se expor.

Por que o acompanhamento precisa continuar após as primeiras semanas?

O puerpério não termina nas primeiras semanas após o parto. A experiência vai se transformando e, com ela, também podem mudar as necessidades emocionais dos envolvidos.

No início, podem estar mais presentes o impacto do nascimento, a privação de sono, as mudanças corporais, a experiência da amamentação e a adaptação à nova rotina. Com o passar do tempo, outras questões podem aparecer: o retorno ao trabalho, as mudanças na relação conjugal, a reorganização dos papéis familiares, as transformações na identidade, a sobrecarga, o isolamento, dificuldades relacionadas aos cuidados com o bebê e questões financeiras e sociais.

Além disso, nem todo sofrimento emocional aparece imediatamente após o nascimento. Algumas dificuldades podem se intensificar ou se tornar mais perceptíveis à medida que a rotina se estabelece e as exigências do cotidiano aumentam.

O cuidado em saúde mental precisa acompanhar o processo, e não apenas um momento específico do pós-parto. A continuidade permite que novas demandas sejam reconhecidas e que a pessoa tenha um espaço para falar sobre as transformações que está vivendo.

Cuidar ao longo do primeiro ano de vida do bebê também significa compreender que a maternidade está sendo construída ao longo do tempo. Não se trata apenas de acompanhar a adaptação ao nascimento, mas de oferecer condições para que essa pessoa possa elaborar as mudanças, reconhecer seus recursos e construir novas formas de estar consigo mesma, com o bebê e com sua rede de relações.

Em uma situação de crise ou risco imediato, o que fazer?

Em situações de risco imediato, devemos reconhecer a necessidade de avaliação e cuidado em caráter de urgência.

Se houver risco de suicídio, tentativa de autoagressão, risco de machucar outra pessoa ou o bebê, confusão mental intensa, alucinações, delírios ou comportamento desorganizado, a pessoa não deve permanecer sozinha. É importante que alguém de confiança permaneça com ela enquanto se busca atendimento.

Que mensagem deixar para quem está sofrendo e ainda não conseguiu pedir ajuda?

O processo de se construir como mãe, durante a gestação ou depois do nascimento, implica aprender a cuidar e a sustentar a existência de um novo ser. Mas, para cuidar de alguém, também precisamos encontrar espaço para cuidar de nós mesmas.

Estar em sofrimento não faz de você uma pessoa ruim, fraca ou uma mãe menos capaz. Significa que você está vivendo uma experiência que, em algum momento, pode ter se tornado difícil demais para ser atravessada sozinha.

Você não precisa esperar chegar ao limite para pedir ajuda. Não precisa ter todas as palavras nem saber exatamente o que está acontecendo. Às vezes, o primeiro passo pode ser simplesmente conseguir dizer: “Eu não estou bem”.

Permita-se ser cuidada também. Procure alguém em quem confie, fale sobre o que está vivendo e, se necessário, busque ajuda profissional.

Você não está sozinha e você não é a única. Muitas experiências que parecem impossíveis de compartilhar podem encontrar um lugar de escuta quando conseguimos falar sobre elas.

E, talvez, seja também o momento de devolver a si mesma um pouco do cuidado que você dedica aos outros.

Cuidar também é construir uma rede

Os 51 registros identificados pelo Observatório Obstétrico Brasileiro não contam, sozinhos, as histórias ou as circunstâncias vividas por cada pessoa. Tampouco permitem apontar uma causa única para os óbitos.

Mas ajudam a colocar em evidência a necessidade de olhar para a saúde mental como parte do cuidado ao longo do ciclo gravídico-puerperal.

Esse cuidado começa na possibilidade de falar e ser ouvida. Passa pela atenção dos familiares e das pessoas próximas, pela escuta dos profissionais e pela existência de uma rede capaz de acompanhar as necessidades que podem surgir ao longo do tempo.

Porque cuidar da saúde materna também significa perguntar como essa pessoa está e permanecer por perto para escutar a resposta.

Veja como encontrar os dados de mortalidade autoprovocada no painel ReMaP:

Referências

BRASIL. Ministério da Saúde. Caderneta Brasileira da Gestante. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026. Disponível em:
Caderneta Brasileira da Gestante. Acesso em: 27 set. 2026.

BRASIL. Ministério da Saúde. Suicídio: saber, agir e prevenir. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2017. Disponível em: Suicídio: saber, agir e prevenir. Acesso em: 27 set. 2026.

CENTRO DE VALORIZAÇÃO DA VIDA (CVV). Apoio emocional e prevenção do suicídio. [S. l.]: CVV, [s. d.]. Disponível em:
CVV. Acesso em: 27 set. 2026.

OBSERVATÓRIO OBSTÉTRICO BRASILEIRO (OOBr). ReMaP: extrações sobre óbitos por lesões autoprovocadas entre gestantes e puérperas residentes no estado de São Paulo, 2019-2024. [S. l.]: OOBr, 2026. Disponível em: ReMaP. Acesso em: 27 set. 2026.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Perinatal mental health. Genebra: World Health Organization, [s. d.]. Disponível em:
Perinatal mental health. Acesso em: 27 set. 2026.