Do pré-natal aos primeiros meses: a rede de proteção que garante o futuro das crianças

12/10/2026

Notícia

Dados paulistas mostram ampliação do acesso ao pré-natal, mas prematuridade e baixo peso ao nascer pedem atenção que vai da gestação aos primeiros anos de vida

Antes de ganhar nome, brinquedo ou festa de aniversário, toda criança já depende de uma rede de cuidados que começa no pré-natal. No estado de São Paulo, esse acompanhamento chega à maioria das gestantes, mas nascem menos bebês a cada ano, sendo que aqueles que chegam mais cedo ou com menos peso precisam de atenção que não termina na alta da maternidade.

O cuidado com a saúde da criança começa antes do nascimento. No Estado de São Paulo, o acesso ao pré-natal é amplo: em 2024, 84,04% das mães fizeram sete consultas ou mais, patamar acima dos 80,46% de 2019. Aliás, o avanço integra o conjunto de dados monitorados pelas condições do nascimento do Observatório Obstétrico (OOBr), que avaliam a assistência pré e pós-natal na rede pública.

No mesmo período, a proporção de gestantes com nenhuma consulta ficou abaixo de 1% (0,60% em 2024). Os dados são do ReMaP, plataforma que reúne informações do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc). Ainda assim, 15,35% das gestantes tiveram de uma a seis consultas em 2024, o que mostra que ainda há espaço para ampliar o acompanhamento completo. 

A organização da Rede Alyne, atualizada pela Portaria GM/MS nº 5.350, de 12 de setembro de 2024, estabelece como referência, na atenção básica, a realização de no mínimo sete consultas de pré-natal, intercaladas entre enfermeiros e médicos. A norma também prevê a captação oportuna da gestante, até 12 semanas de gestação, além de exames, vacinação, acompanhamento de intercorrências e vinculação ao local de referência para o parto.

Queda de nascimentos

O Estado também registra menos nascimentos. Foram 583.183 nascidos vivos em 2019 e 470.883 em 2024, uma redução de cerca de 19% em cinco anos. Só entre 2023 e 2024, a queda foi de aproximadamente 6,5%. Os dados de 2025 ainda são preliminares.

Prematuridade

A prematuridade, porém, não acompanha essa queda. Segundo dados do ReMaP, em números absolutos os partos prematuros (antes de 37 semanas) diminuíram de 65.682, em 2019, para 57.939, em 2024. Mas, como nasceram menos bebês, a proporção subiu de 11,28% para 12,32% no período.   Já o Painel de Vigilância da Saúde Materna e Perinatal indica que, entre 2019 e 2024, a prematuridade média no Estado foi de 11,7%, cerca de 46% acima do valor de referência de 8%, observado em países desenvolvidos. Entre os prematuros, 60,4% nasceram entre 35 e 36 semanas, 20,3% entre 33 e 34 semanas, 14,1% entre 28 e 32 semanas e 5,2% com menos de 28 semanas.

Baixo peso

Outro indicador de atenção destacado que deve ser levado em conta é o baixo peso ao nascer. De acordo com o Painel de Vigilância da Saúde Materna e Perinatal, entre 2019-2024, 9,7% dos bebês nasceram com menos de 2.500 gramas, valor 51,6% acima da meta global de redução, de no máximo 6,4%. Entre eles, 83,7% pesavam de 1.500 a 2.499 gramas, 8,9% de 1.000 a 1.499 gramas e 7,4% menos de 1.000 gramas. Quanto menor o peso, maior a necessidade de cuidados especializados.

Termo precoce e cesarianas

O Painel de Vigilância da Saúde Materna e Perinatal aponta que 33,6% dos nascimentos ocorreram em termo precoce, em geral entre 37 e 38 semanas de gestação. O índice está 68% acima da referência de 20%. Ao mesmo tempo, dados do ReMaP mostram que as cesarianas avançaram: passaram de 58,85% dos partos em 2019 para 61,75% em 2024. 

Cuidado após a alta

Os números mostram que a assistência na gestação e a atenção às condições de nascimento fazem diferença. Mas o cuidado não termina na alta da maternidade. Nos primeiros anos, a puericultura (consultas regulares de acompanhamento), a vacinação em dia, o incentivo à amamentação e o monitoramento do crescimento e do desenvolvimento são essenciais, sobretudo para bebês prematuros ou de baixo peso, que costumam precisar de seguimento mais próximo.

O cuidado com a criança não termina no parto. Nos primeiros dias de vida, a assistência também envolve orientar a mãe sobre amamentação, banho e outros cuidados básicos com o recém-nascido. No alojamento conjunto do Hospital das Clínicas da FMUSP, esse acompanhamento é realizado por uma equipe multiprofissional, segundo Catiane Ferreira Abdalla, chefe de enfermagem da Obstetrícia. O aleitamento materno exclusivo até os seis meses também é recomendado pelo Ministério da Saúde. 

“Desde o técnico de enfermagem até o enfermeiro, médico e pediatra, todo mundo apoia essa mulher nesse momento diferente da vida. A amamentação é uma mudança fisiológica, uma mudança no corpo e uma adaptação da criança. A gente trabalha muito com a questão do aleitamento materno exclusivo estimula que ela amamente o bebê, minimamente, até o sexto mês de vida, quando começa a introdução alimentar. Isso é muito ganho para a criança, tanto no aspecto nutricional como em todos os benefícios que a amamentação possui”, afirma Catiane.

Catiane Ferreira Abdalla, chefe de enfermagem da Obstetrícia no Hospital das Clínicas da FMUSP.

Além da alimentação, os primeiros dias de vida concentram cuidados que ajudam a proteger a saúde do bebê e a identificar possíveis necessidades de acompanhamento. Entre eles estão a vacinação e as orientações oferecidas à família antes da alta. A vacinação de rotina do recém-nascido inclui BCG e hepatite B, conforme o Calendário Nacional de Vacinação.

“Aqui no alojamento conjunto também, além de toda essa parte de orientação de amamentação, a gente tem até uma cartilha que a gente entrega para as mães. A gente tem orientação do banho, ensina e estimula a mãe a dar banho com a técnica certinha. A gente apoia, fica junto. Todas as crianças que estão aqui no alojamento conjunto recebem a vacina da hepatite B, que ela recebe no centro obstétrico, e a BCG. E, se for um bebê prematuro, também recebe aquela medicação específica para bebês abaixo de 36 semanas”, explica.

Outra etapa importante da assistência neonatal é a triagem que permite identificar precocemente algumas doenças antes mesmo do surgimento de sinais ou sintomas. O teste do pezinho integra o Programa Nacional de Triagem Neonatal e deve ser realizado no período recomendado pelo Ministério da Saúde, entre 48 horas após o nascimento e o quinto dia de vida.

No HC, segundo Catiane, a coleta faz parte da rotina do alojamento conjunto. A identificação precoce de alterações permite encaminhar a criança para investigação e cuidado adequados, reforçando que a atenção à saúde continua mesmo depois do nascimento.

“Todas as crianças saem daqui do hospital com o teste do pezinho feito. Esse teste é obrigatório e não existe contraindicação. O bebê nasce e fica por 48 horas de vida internado no hospital para realizar o teste. Depois de 48 horas, colhe o teste do pezinho e, estando tudo bem, ele está apto para ir embora para casa. Então é o tempo que essa mãe fica com o bebê internado aqui, 48 horas”, afirma Catiane.

Referências

BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 1.130, de 5 de agosto de 2015. Institui a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Criança (PNAISC) no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2015. Eixo I: “Atenção humanizada e integrada à gravidez, ao parto e ao recém-nascido”.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Caderneta da Criança: Passaporte da Cidadania. 6. ed. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2023. Seção “Acompanhamento do crescimento e desenvolvimento infantil”.

WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). WHO recommendations on antenatal care for a positive pregnancy experience. Geneva: World Health Organization, 2016. Disponível em: WHO – Antenatal care guidelines. Acesso em: 7 out. 2026.

OBSERVATÓRIO OBSTÉTRICO BRASILEIRO. Painel de Vigilância da Saúde Materna e Perinatal. Disponível em: https://observatorioobstetrico.shinyapps.io/painel-vigilancia-saude-materna-v2/. Acesso em: 8 out. 2026 

PROJETO ReMaP. Dados sobre nascidos vivos e evolução da natalidade no Estado de São Paulo (2019–2024). Projeto ReMaP – Reestruturação e Redesenho da Rede de Atenção Materna e Perinatal no Estado de São Paulo. Acesso em: 8 out. 2026.