Vacinação ao nascer: proteção que começa na maternidade e continua na rede de saúde

17/10/2026

Notícia

No Dia Nacional da Vacinação, dados paulistas destacam a importância da BCG e da vacina contra a hepatite B e os desafios para garantir a imunização desde o nascimento

No Dia Nacional da Vacinação, celebrado em 17 de outubro, o acompanhamento dos indicadores de imunização ao nascer chama a atenção para uma etapa importante da saúde infantil: a transição do recém-nascido entre a maternidade e a rede de atenção primária. No contexto da saúde materna e perinatal, a integração entre os serviços de saúde contribui para a prevenção de agravos e para a continuidade do cuidado com a mãe e o bebê. Nesse percurso, garantir as primeiras doses das vacinas recomendadas é uma das medidas importantes de proteção à saúde da criança.

A vacinação nas primeiras horas e nos primeiros dias de vida é uma estratégia de saúde pública para prevenir infecções graves. De acordo com as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Calendário Nacional de Vacinação, a vacina contra a hepatite B deve ser administrada preferencialmente nas primeiras 24 horas após o nascimento. Essa dose é fundamental para prevenir a transmissão vertical do vírus, ou seja, da mãe para o bebê. Quando adquirida na infância, a infecção tem maior probabilidade de se tornar crônica e pode levar a complicações como cirrose e câncer de fígado na vida adulta.

A vacina BCG, por sua vez, é recomendada ao nascer e protege contra formas graves da tuberculose, como a meningite tuberculosa e a tuberculose miliar. A aplicação dessas vacinas no início da vida representa uma etapa importante da proteção da criança e deve estar integrada ao acompanhamento realizado pelos serviços de saúde.

Vale destacar que a vacinação continua nos meses seguintes ao nascimento. Como destaca o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), aos dois meses de vida estão previstas as primeiras doses das vacinas pentavalente, contra a poliomielite, pneumocócica 10-valente e rotavírus. A continuidade do esquema vacinal amplia a proteção contra diferentes doenças e reforça a importância do acompanhamento da situação vacinal da criança após a alta da maternidade.

O mapa da vacinação no Estado de São Paulo revela um cenário de fortes contrastes. No painel do Ministério da Saúde, que divide as cidades em seis cores, do marrom-escuro (alerta crítico, de 0% a 20%) ao azul-escuro (meta atingida), a maior parte do estado aparece pintada de azul e verde, mostrando que a maioria dos municípios atinge ou fica muito perto da meta. No entanto, manchas em amarelo, laranja e vermelho espalhadas pelo mapa chamam a atenção para cidades que ainda enfrentam dificuldades para imunizar seus recém-nascidos. O raio-X mostra que, embora a média paulista seja alta, o grande desafio é garantir que a proteção chegue de forma homogênea a todos os cantos do estado.

A análise dos registros do Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunizações (SI-PNI), referentes ao período de janeiro a agosto de 2026, mostra diferenças nos indicadores de vacinação ao nascer no Estado de São Paulo. De um total estimado de 324,9 mil nascimentos, a cobertura da BCG foi de 92,81%, abaixo da meta de 95% adotada pelo Ministério da Saúde para esse imunizante.

No caso da hepatite B, a cobertura da dose administrada nas primeiras 24 horas de vida foi de 87,23% no estado. Quando considerados os registros de vacinação realizados em até 30 dias após o nascimento, o indicador chega a 92,13%. A diferença mostra que parte das doses foi registrada após o primeiro dia de vida e reforça a importância de acompanhar tanto a oportunidade da vacinação quanto a continuidade do cuidado após a alta hospitalar.

Na capital paulista, que concentrou cerca de 82,8 mil nascimentos no período, aproximadamente 25% do total estadual estimado, os indicadores foram inferiores aos registrados para o conjunto do estado. A cobertura da BCG foi de 84,28%, enquanto a da vacina contra a hepatite B nas primeiras 24 horas de vida foi de 74,96%.

Por reunir um volume expressivo de nascimentos, a capital tem peso relevante nos resultados estaduais. Os indicadores, no entanto, não permitem, isoladamente, identificar os fatores responsáveis pelas diferenças observadas. Para compreender esse cenário, é necessário considerar aspectos como a organização dos serviços, o acesso à vacinação, o registro das doses e a articulação entre os pontos da rede de saúde.

As diferenças também aparecem entre municípios de menor porte. Em Barra do Chapéu, por exemplo, o indicador da vacina contra a hepatite B ao nascer ultrapassou 100%, enquanto a cobertura da BCG foi de 18,87%. Em Serra Azul, os registros apontaram coberturas de 13,56% para a BCG e de 30,51% para a hepatite B nas primeiras 24 horas de vida.

Resultados acima de 100% ou coberturas muito baixas precisam ser interpretados com cautela. Diferenças entre o número de doses registradas e a população utilizada como referência, além de questões relacionadas ao registro e à organização dos serviços, podem influenciar os indicadores. No caso da BCG, aspectos logísticos também podem ser relevantes, já que a vacina é apresentada em frascos multidose e sua aplicação exige organização dos atendimentos. No entanto, os dados disponíveis, por si só, não permitem afirmar que esses fatores expliquem as diferenças encontradas nos municípios.

Nesse contexto, o ReMaP contribui para a compreensão dos indicadores de saúde materna e perinatal no Estado de São Paulo. Embora os dados de vacinação apresentados sejam provenientes do SI-PNI, e não do ReMaP, a discussão evidencia a importância da articulação entre os serviços para que o cuidado iniciado durante a gestação e na maternidade tenha continuidade após o nascimento.

Vacinação precoce reduz riscos nos primeiros meses de vida

Para a professora sênior do Departamento de Infectologia e Medicina Tropical da FMUSP Marta Heloisa Lopes, a vacinação ainda na maternidade é especialmente importante porque o sistema imunológico do recém-nascido ainda está em desenvolvimento. No caso da BCG, a proteção está relacionada à prevenção das formas mais graves da tuberculose, como a tuberculose miliar e a tuberculose do sistema nervoso central, que podem levar à morte ou deixar sequelas.

A especialista explica que a BCG não impede que a criança entre em contato com o bacilo da tuberculose, mas reduz o risco de evolução para essas manifestações graves. “A vacina não protege da infecção, mas impede a evolução da doença para as formas graves”, afirma. Por isso, diante da circulação do bacilo da tuberculose no país, Lopes considera importante que a imunização ocorra ainda no início da vida, preferencialmente durante a permanência na maternidade.

No caso da hepatite B, a vacinação ao nascer tem uma função ainda mais diretamente relacionada à prevenção da transmissão da mãe para o bebê. A infecção pode ocorrer no momento do parto, quando há maior contato da criança com sangue materno. Segundo Lopes, a administração da vacina nas primeiras horas de vida é uma estratégia para reduzir o risco de infecção mesmo quando a condição da mãe não foi identificada durante o pré-natal.

A médica ressalta que a hepatite B adquirida no nascimento apresenta maior probabilidade de evoluir para a forma crônica. “A hepatite B adquirida ao nascimento pode evoluir com maior frequência para hepatite crônica, levando a insuficiência hepática e até a carcinoma de fígado”, explica. A vacinação precoce, portanto, funciona como uma medida de proteção que começa antes mesmo de a criança deixar a maternidade.

Informação e qualificação profissional são desafios para evitar perdas de oportunidade

Apesar de serem vacinas gratuitas e disponíveis pelo Sistema Único de Saúde (SUS), garantir que BCG e hepatite B sejam administradas no momento adequado ainda exige atenção por parte dos serviços de saúde. Para Lopes, um dos principais desafios está na qualidade da informação oferecida tanto às famílias quanto aos próprios profissionais.

“Profissionais de saúde bem qualificados, conhecedores da gravidade dessas doenças e do perigo da não vacinação servem de fonte de esclarecimento para a gestante e seus familiares, tanto durante o pré-natal, quanto no momento do parto”, afirma. A especialista chama atenção ainda para uma particularidade importante: segundo ela, há resistência de algumas maternidades em aplicar as vacinas, e não necessariamente por parte das mães ou dos familiares.

Outro ponto citado pela infectologista é o atraso na aplicação da BCG. Segundo Lopes, em algumas situações a vacinação tem sido postergada enquanto se aguarda o resultado de exames de investigação imunológica. O problema, explica, é que esses resultados podem demorar, fazendo com que algumas crianças recebam alta hospitalar sem ter recebido a vacina.

Para a professora, essa espera pode representar uma perda de oportunidade de imunização. “Adotando raciocínio baseado em evidências essa conduta é temerária em país como o Brasil onde ainda há grande circulação do bacilo da tuberculose”, afirma. Ela destaca que, na grande maioria das crianças, a investigação imunológica apresenta resultado normal, o que reforça, em sua avaliação, a necessidade de evitar que a espera pelo exame adie desnecessariamente a vacinação.

A continuidade da proteção depois da alta também depende da qualificação dos profissionais que acompanham a criança na atenção primária. Embora ressalte não atuar na pediatria nem na gestão de serviços, Lopes considera fundamental manter processos frequentes de atualização das equipes e criar canais de acesso para que profissionais possam esclarecer dúvidas. “Ponto fundamental é melhorar a qualificação dos profissionais de saúde da atenção primária, mantendo reciclagens frequentes e estabelecimento de canais de fácil acesso para discussão de dúvidas”, afirma.

Nesse sentido, a vacinação ao nascer não deve ser entendida como uma ação isolada da maternidade. A proteção começa nas primeiras horas de vida, mas depende também da informação durante o pré-natal, da atuação dos profissionais no momento do parto e do acompanhamento posterior da criança na rede de saúde.

Refeferências

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Painel de Coberturas Vacinais Infantis (Residência): dados do Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunizações (SI-PNI). Brasília: MS, 2026. Atualizado em: 15 out. 2026. Disponível em: https://localizasus.saude.gov.br/.   Acesso em: 15 out. 2026.

BRASIL. Ministério da Saúde. Calendário Nacional de Vacinação da Criança. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/c/calendario-nacional-de-vacinacao/calendario-vacinal-da-crianca. Acesso em: 15 out. 2026.

BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 1.533, de 18 de agosto de 2016. Altera a Portaria nº 204/GM/MS, de 29 de janeiro de 2016, para redefinir a Lista Nacional de Notificação Compulsória de doenças, agravos e eventos em saúde pública nos serviços de saúde públicos e privados em todo o território nacional. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, n. 160, p. 52, 19 ago. 2016. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2016/prt1533_18_08_2016.html. Acesso em: 15 out. 2026.

BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, p. 13563, 16 jul. 1990. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm. Acesso em: 15 out. 2026.

FUNDO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A INFÂNCIA (UNICEF). Calendário Nacional de Vacinação Brasileiro. Disponível em: https://www.unicef.org/brazil/calendario-nacional-de-vacinacao-brasileiro  Acesso em: 15 out. 2026.

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