O que fazer em casos de Emergências Hipertensivas: Protocolos obstétricos que salvam vidas

14/07/2026

Notícia

A morte da gestante Bárbara Luana Fernandes Aleixo e de seu bebê, em Minas Gerais, reacendeu o debate sobre a importância do reconhecimento precoce e do manejo adequado das emergências obstétricas. Segundo informações divulgadas pela imprensa, a paciente apresentava um quadro compatível com pré-eclâmpsia grave, uma das complicações mais críticas associadas à hipertensão na gestação. O caso segue sob investigação das autoridades competentes.

Para especialistas em saúde materna, situações como essa evidenciam a importância de protocolos clínicos bem definidos, comunicação eficiente entre as equipes assistenciais e resposta rápida diante de sinais de agravamento. Em casos de emergência obstétrica, a identificação precoce e o início oportuno do tratamento podem ser determinantes para reduzir o risco de complicações graves e óbitos maternos e fetais.

 

O que é a eclâmpsia?

A eclâmpsia é uma das complicações hipertensivas  mais graves na gestação. Ela ocorre quando a gestante apresenta convulsões associadas à pré-eclâmpsia, condição caracterizada pelo aumento da pressão arterial e que pode comprometer órgãos como rins, fígado, cérebro e pulmões.

Embora seja considerada uma emergência obstétrica, as complicações da eclâmpsia podem ser evitadas quando os sinais de alerta são identificados precocemente e a assistência é realizada de forma oportuna. Entre as principais complicações da eclâmpsia  e da pré-eclâmpsia estão acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência renal, edema pulmonar (acúmulo de líquido nos pulmões), descolamento prematuro da placenta, parto prematuro, por morte materna e fetal.

De acordo com o Manual de Gestação de Alto Risco do Ministério da Saúde, o acompanhamento pré-natal adequado é uma das principais estratégias para identificar precocemente fatores de risco e evitar a progressão da doença para quadros mais graves.

 

Quando a pressão alta se torna uma emergência?

Os protocolos assistenciais recomendam atenção imediata quando a gestante apresenta pressão arterial muito elevada ou sintomas sugestivos de agravamento da doença, como dor de cabeça intensa e persistente, alterações visuais (pontinhos brilhantes, visão turva), falta de ar, dor na região superior do abdômen náuseas, vômitos ou confusão mental.

Nessas situações, o atendimento médico deve ser imediato. Os protocolos clínicos recomendam a avaliação rápida da gestante, com início oportuno do tratamento para controle da pressão arterial, prevenção de convulsões e monitoramento contínuo das condições maternas e fetais.

O tempo-resposta é um componente essencial da segurança obstétrica. Quanto mais rapidamente a emergência é reconhecida e tratada, menores são as chances de evolução para complicações graves, apontam as diretrizes nacionais para o manejo das síndromes hipertensivas da gestação

 

As três demoras e os riscos evitáveis

A literatura científica utiliza o modelo das “Três Demoras” para compreender fatores associados à mortalidade materna evitável.

A primeira demora ocorre quando os sinais de gravidade não são reconhecidos rapidamente pela gestante ou pela família, retardando a busca por assistência. A segunda está relacionada às dificuldades de acesso ao serviço de saúde adequado, incluindo barreiras geográficas, transporte e regulação. Já a terceira demora acontece dentro do sistema de saúde, envolvendo atrasos no diagnóstico, na realização de exames, no início do tratamento ou no encaminhamento para serviços de maior complexidade.

No caso das emergências hipertensivas, qualquer uma dessas etapas pode influenciar significativamente o desfecho clínico. Por isso, a integração entre atenção básica, maternidades, serviços de urgência e unidades de referência é considerada um dos pilares da assistência obstétrica segura.

 

Comunicação entre equipes e treinamento também salvam vidas

Além da disponibilidade de recursos e profissionais, a comunicação efetiva entre equipes assistenciais é apontada como um elemento central para a qualidade do cuidado.

Protocolos clínicos funcionam justamente para reduzir incertezas em situações críticas, definindo fluxos de atendimento, responsabilidades e critérios para acionamento de especialistas. Em casos de rápida deterioração clínica, a equipe assistencial pode acelerar decisões terapêuticas e garantir maior segurança ao paciente.

A adoção de treinamentos periódicos, simulações de emergência obstétrica e protocolos institucionais padronizados tem sido recomendada por sociedades científicas nacionais e internacionais como estratégia para reduzir eventos adversos evitáveis.

O peso das causas hipertensivas na mortalidade materna

Dados do painel ReMaP para o Estado de São Paulo mostram que as condições hipertensivas permanecem entre as principais causas de morte materna. Entre 2019 e 2024, a participação das causas hipertensivas entre os óbitos por causas diretas variou entre 20,7% e 29,7%, evidenciando a relevância desse grupo de agravos para a saúde pública.

Em 2024, por exemplo, as causas hipertensivas responderam por 26,8% dos óbitos por causas obstétricas diretas registrados no estado. O cenário reforça a necessidade de fortalecer a vigilância, o pré-natal de qualidade e a capacidade de resposta dos serviços de saúde diante de emergências obstétricas.

Ano Causas Hipertensivas (%) Causas Obstétricas Diretas (%)
2019 29,7% 55,8%
2020 20,8% 46,4%
2021 23,1% 31,3%
2022 26,3% 66,2%
2023 20,7% 66,0%
2024 26,8% 63,2%

Um debate que vai além de casos individuais

Casos que ganham repercussão pública costumam despertar discussões sobre responsabilidades específicas, que devem ser analisadas pelas autoridades competentes. No entanto, para especialistas em saúde materna, essas situações também oferecem uma oportunidade para ampliar o debate sobre organização da rede assistencial, adesão a protocolos baseados em evidências e fortalecimento da segurança do paciente.

A pré – eclâmpsia e a eclâmpsia continuam sendo condições potencialmente fatais, mas amplamente conhecidas pela medicina e passíveis de intervenção quando reconhecidas precocemente. Investir em qualificação profissional, protocolos clínicos, comunicação entre equipes e acesso oportuno ao cuidado permanece sendo uma das estratégias mais eficazes para reduzir mortes maternas e neonatais evitáveis no Brasil.

Fontes e referências:

BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Gestação de Alto Risco. 6. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2022.

PERAÇOLI, José Carlos et al. Protocolo da Rede Brasileira de Estudos sobre Hipertensão na Gravidez (RBEHG). In: BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Gestação de Alto Risco. 6. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2022.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA (SBC). Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, Rio de Janeiro, 2025.

Painel ReMaP – Rede de Monitoramento e Avaliação Participativa da Saúde Materna e Perinatal. Observatório Obstétrico Brasileiro. Disponível em: Painel ReMaP. Acesso em: 26 jun. 2026.

REIS, Gabriel. Obstetra preso após morte de grávida e bebê foi chamado mais de 5 vezes para comparecer ao hospital em MG, diz diretor. g1 Triângulo, 12 jun. 2026. Disponível em: Reportagem do g1 Triângulo. Acesso em: 26 jun. 2026.