Notícia
31/08/2026
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Agosto chega ao fim, e com ele se encerra mais um Agosto Dourado, mês que coloca o aleitamento materno no centro das discussões sobre saúde, cuidado e proteção. Para marcar esse encerramento, preparamos uma reportagem especial sobre os benefícios da amamentação, os desafios enfrentados por quem amamenta e, sobretudo, sobre a importância de uma rede de cuidado capaz de promover, proteger e apoiar essa prática ao longo de toda a jornada.
A cor dourada ganhou, no mês de agosto, um significado especial na saúde: representa o aleitamento materno e o chamado “padrão ouro” de qualidade do leite humano. Instituído no Brasil pela Lei nº 13.435/2017, o Agosto Dourado é dedicado à conscientização, ao incentivo e ao apoio à amamentação. A primeira semana do mês, de 1º a 7 de agosto, também marca a Semana Mundial do Aleitamento Materno.
Em São Paulo, a Secretaria de Estado da Saúde realizou ações de conscientização e educação em saúde, como palestras, atividades em unidades de saúde e hospitais e campanhas de divulgação. Mas, para além das campanhas, promover, proteger e apoiar a amamentação significa construir uma rede capaz de acompanhar a pessoa que amamenta desde o pré-natal, passando pela maternidade, até o retorno para casa, o trabalho e os demais espaços de convivência.
Para fechar o Agosto Dourado com chave de ouro, convidamos Roberta Ricardes Pires, enfermeira e coordenadora da Saúde da Criança na Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, especialista Master em Liderança e Gestão Pública e integrante de espaços de articulação das políticas de saúde materno-infantil, para falar sobre os benefícios do aleitamento materno, os desafios enfrentados por quem amamenta e, principalmente, sobre como uma rede de cuidado fortalecida pode fazer a diferença para garantir que a amamentação seja apoiada e protegida.
Na entrevista, Roberta destaca que o aleitamento materno é uma importante estratégia de saúde pública e defende que seu sucesso não depende apenas da pessoa que amamenta. Para ela, políticas públicas, serviços de saúde, condições de trabalho, famílias e comunidade precisam atuar de forma articulada.
Por que promover, proteger e apoiar a amamentação é uma estratégia de saúde pública? Qual é o impacto do aleitamento materno na prevenção de adoecimentos e da mortalidade infantil?
O leite humano é a estratégia isolada que mais previne mortes em menores de 5 anos. Funciona protegendo contra diarreias, infecções respiratórias, otites e alergias.
A longo prazo, reduz o risco de obesidade, hipertensão, colesterol alto e diabetes tipo 2, além de favorecer o desenvolvimento cognitivo e a formação fonoaudiológica, envolvendo face e fala.
Para a mãe, reduz riscos de hemorragia pós-parto, câncer de mama, ovário e colo do útero. Além disso, fortalece o vínculo afetivo com o bebê.
O tema da Semana Mundial do Aleitamento Materno em 2026 propõe “fortalecer o que funciona”. Na sua avaliação, que ações e políticas já demonstram resultados positivos no apoio à amamentação e precisam ser ampliadas?
Existem diversos arcabouços legais e institucionais para garantir o direito da criança de ser amamentada e o direito da família de amamentar, garantidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, pelo Marco Legal da Primeira Infância e pela NBCAL, que regula a comercialização de alimentos infantis, bicos e mamadeiras.
Temos também o Agosto Dourado, mês dedicado à promoção do aleitamento e à mobilização social quanto ao tema, e a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Criança, a PNAISC.
Dentro dela, temos a Estratégia Amamenta e Alimenta Brasil, que capacita profissionais da atenção básica para orientar a amamentação e a alimentação complementar saudável até os 2 anos.
A Iniciativa Hospital Amigo da Criança também é muito importante. Ela qualifica maternidades e profissionais nos 10 passos do aleitamento materno, incluindo o contato pele a pele na primeira hora, o alojamento conjunto, o cuidado amigo da mulher e o acesso dos pais por 24 horas.
Temos ainda a Rede de Bancos de Leite Humano, que coleta, processa e distribui leite pasteurizado para recém-nascidos de risco em UTIs neonatais, além de oferecer atendimento público para o manejo das dificuldades na amamentação.
O Método Canguru é outra estratégia voltada para prematuros de baixo peso e suas mães e pais. Ele busca favorecer o aleitamento materno por meio do apoio e da assistência na amamentação, na maternidade e no seguimento das crianças.
Também existem ações transversais, como a Mulher Trabalhadora que Amamenta, com espaços dentro das empresas em que a mulher, com conforto, privacidade e segurança, pode esvaziar as mamas e armazenar seu leite para, em outro momento, oferecê-lo ao filho.
Além disso, temos a rede de apoio, que pode ser familiar ou da comunidade onde reside.
As iniciativas já existem e trazem resultados positivos. A necessidade é o monitoramento para a identificação de cuidados fragmentados entre as redes primária e secundária, trabalhar os pontos falhos e as desigualdades territoriais.
Na prática, como políticas públicas, serviços de saúde e condições de trabalho podem favorecer ou dificultar a continuidade da amamentação?
As leis são fundamentais para avançarmos nesse sentido.
A Lei Estadual nº 18.425/2026, por exemplo, garante o direito à amamentação em creches paulistas e orienta o Estado a apoiar os municípios no incentivo a essa prática.
Na mesma linha, a Lei nº 11.770/2008 criou o Programa Empresa Cidadã, permitindo estender a licença-maternidade para 180 dias e a paternidade para 20.
Contudo, aprimorar o engajamento de instituições públicas e privadas é essencial para garantir a continuidade do aleitamento.
Como deve funcionar a rede de cuidado desde a maternidade até o acompanhamento após a alta, para que a pessoa que amamenta não fique sem apoio quando surgem dificuldades?
É preciso pensar na rede de saúde como um processo contínuo.
A Rede Alyne é a organizadora da linha de cuidado da gestante, da puérpera e da criança no território. O programa garante desde o pré-natal, da mulher e do parceiro, e a vinculação com a maternidade até o parto seguro e a assistência obstétrica adequada.
Além disso, assegura a alta responsável do binômio e o agendamento da primeira consulta na UBS de referência, consolidando a lógica de referência e contrarreferência.
Quando surgem dificuldades, como a pessoa que amamenta pode acessar essa rede? Quais serviços estão disponíveis e por onde deve começar a buscar ajuda?
Em caso de dificuldade na amamentação, a mulher pode procurar a sua UBS de referência ou recorrer à Rede Paulista de Bancos de Leite Humano e Postos de Coleta de Leite Humano, a maior do Brasil.
É possível localizar a unidade mais próxima da sua casa pelo site da Rede de Bancos de Leite Humano da Fiocruz.
Qual é o papel dos Bancos de Leite Humano e da articulação entre maternidade e outros serviços nessa cadeia de proteção e apoio à amamentação?
Além de coletar, processar e distribuir leite humano para bebês prematuros ou de baixo peso, os Bancos de Leite Humano oferecem orientação e suporte direto às mães durante a amamentação.
Vinculado a hospitais de atenção materna e infantil, o Banco de Leite é um serviço especializado na promoção e proteção do aleitamento.
Além do controle de qualidade do leite doado e da sua distribuição nas unidades neonatais, o espaço atua como um forte aliado na manutenção da amamentação para pacientes do SUS e da rede privada.
No território, desempenha ainda um papel estratégico ao capacitar profissionais da saúde no manejo clínico do aleitamento.
O que ainda precisa avançar para que o apoio à amamentação deixe de depender apenas do esforço individual da pessoa que amamenta e seja, de fato, uma responsabilidade compartilhada entre serviço de saúde, poder público, locais de trabalho, famílias e sociedade?
A legislação precisa evoluir para a criação da licença parental, um modelo em que pai e mãe dividem o tempo de afastamento do trabalho.
Isso garante direitos iguais na prática, estimula a divisão das tarefas domésticas e do cuidado com os filhos, além de combater o preconceito contra a mulher no mercado de trabalho.
Embora o Estado já conte com cerca de 100 salas de amamentação em empresas parceiras, esse número ainda é tímido diante de suas dimensões.
Estimular o interesse das empresas em instalar esses espaços, assim como implementá-los em creches e Unidades Básicas de Saúde, pode reduzir significativamente o desmame precoce.
Além disso, é essencial fortalecer o suporte no dia a dia por meio das visitas domiciliares dos Agentes Comunitários de Saúde após a alta hospitalar, de consultas regulares de enfermagem e médica para a criança, e do envolvimento ativo de parceiros, familiares e da comunidade.
Por fim, é necessário promover mudanças culturais fundamentais para garantir o respeito à amamentação tanto em espaços públicos quanto corporativos.
Amamentar é um compromisso de toda a rede
A entrevista mostra que o aleitamento materno não pode ser compreendido apenas como uma escolha ou responsabilidade individual. Seus benefícios para a saúde da criança e da mulher são amplos, mas para que eles possam ser alcançados é necessário que exista uma rede preparada para apoiar a amamentação em diferentes momentos da vida.
Fortalecer o que funciona, como propõe a Semana Mundial do Aleitamento Materno em 2026, significa ampliar políticas e iniciativas que já demonstram resultados, mas também monitorar a rede para identificar falhas, reduzir desigualdades territoriais e garantir a continuidade do cuidado.
Para o ReMaP e o Observatório Obstétrico Brasileiro, olhar para a amamentação a partir da perspectiva da rede significa reconhecer que a saúde materna e infantil é construída em diferentes pontos da assistência.
A amamentação começa na relação entre quem amamenta e o bebê, mas sua proteção depende de todos: serviços de saúde, poder público, locais de trabalho, famílias e sociedade.
Apoiar quem amamenta, portanto, é também uma forma de cuidar da saúde de toda uma geração.