ReMaP — Reestruturação e Redesenho da Rede de Atenção Materna e Perinatal

16/05/2025

Apesar de sua posição de destaque como um dos maiores centros urbanos e tecnológicos do mundo, o Estado de São Paulo ainda convive com um desafio persistente e inaceitável: a mortalidade materna, fetal e neonatal. Em meio a avanços estruturais, persistem lacunas críticas que vão desde a pactuação da rede de atenção até a fragmentação de dados da atenção à saúde, essenciais para monitoramento das iniciativas nesta área. Foi nesse contexto que surgiu o ReMaP, uma iniciativa ousada que alia ciência, tecnologia e gestão pública com um propósito claro: salvar vidas.

O QUE É O REMAP?

O ReMaP – Reestruturação e Redesenho da Rede de Atenção Materna e Perinatal – é um projeto estratégico e inovador, idealizado e liderado pelas professoras Rossana Pulcineli Vieira Francisco e Agatha Sacramento Rodrigues e pela área Técnica de Saúde da Mulher da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, com o suporte de uma equipe multidisciplinar altamente qualificada e comprometida com a transformação do cuidado à saúde materna e neonatal no Estado de São Paulo.

Com base em dados concretos e evidências científicas, o ReMaP tem como missão produzir conhecimentos úteis para repensar e redesenhar a rede de atenção materna e perinatal, identificando falhas estruturais, antecipando riscos e oferecendo suporte técnico, baseado em dados de monitoramento, a gestores e profissionais de saúde. O projeto promove uma tomada de decisão mais qualificada, eficiente e sensível às realidades locais.

Mais do que uma intervenção técnica, o ReMaP representa um compromisso profundo com a vida. A iniciativa surge diante de uma contradição inaceitável: mesmo em uma das regiões mais avançadas e urbanizadas do Estado de São Paulo, persistem índices alarmantes de mortalidade materna, fetal e neonatal. Em pleno século XXI, salvar mães e bebês ainda é um desafio que exige respostas concretas, integradas e baseadas em ciência, gestão qualificada e sensibilidade social.

As causas são múltiplas e incluem a falta de sistemas de dados atualizados e conectados que permitam ações rápidas e eficazes. É nesse contexto que o ReMaP se estabelece como uma resposta concreta, ética e transformadora. Unindo ciência, inovação tecnológica e gestão pública, o projeto atua em conjuntos com Munícípios e Estado de São Paulo para garantir que todas as mulheres e recém-nascidos tenham acesso a um cuidado digno, seguro e de qualidade.

Alinhado aos princípios de transparência, evidência científica e democratização do conhecimento, o ReMaP compartilha seus resultados de forma aberta e acessível, contribuindo para políticas públicas mais efetivas e para a construção de um futuro mais justo para mães e bebês em todo o Estado.

JÁ ESTÁ ACONTECENDO!

O projeto ReMaP encontra-se em plena execução, com equipes altamente dedicadas à análise integrada de dados, ao desenvolvimento de painéis interativos e à articulação contínua com gestores públicos. Em parceria com o Governo do Estado de São Paulo, a iniciativa consolida uma atuação coordenada e estratégica. Financiado pela FAPESP, o projeto já disponibiliza os primeiros gráficos e painéis, que são atualizados regularmente, refletindo informações precisas, relevantes e acionáveis.

REDE ALYNE: UMA NOVA FORÇA PELA EQUIDADE

O ReMaP fortalece seu compromisso com a justiça social ao se conectar à recém-lançada Rede Alyne uma articulação interinstitucional dedicada à promoção da justiça reprodutiva, à equidade racial e ao combate às mortes maternas evitáveis. Inspirada na história emblemática de Alyne da Silva Pimentel, mulher negra que faleceu por negligência obstétrica no Brasil, cujo caso ganhou reconhecimento internacional, a Rede Alyne representa um marco no enfrentamento das desigualdades raciais e sociais que impactam diretamente a saúde materna.

POR QUE AGORA?

A pandemia da COVID-19 deixou um legado doloroso, muitas gestantes perderam suas vidas sem acesso a cuidados intensivos essenciais, como internação em UTI ou intubação orotraqueal. Esse momento crítico escancarou as lacunas assistenciais e as falhas estruturais na organização do cuidado materno. De fato, de acordo com estudo do Observatório Obstétrico Brasileiro COVID‑19, coordenado por Rossana Pulcineli Vieira Francisco e colaboradores, entre os 1.031 óbitos maternos por COVID‑19 analisados, uma parcela significativa de gestantes e puérperas não recebeu atendimento em unidade de terapia intensiva (UTI) antes do falecimento. Esse dado evidencia falhas estruturais graves e reforça o alerta sobre as deficiências no acesso oportuno e adequado à atenção materna em situações clínicas críticas. É nesse contexto urgente que nasce o ReMaP, para em parceria com municípios e o Estado de São Paulo assegurar acesso qualificado, proteção integral e cuidado digno a todas as gestantes com especial atenção àquelas em situação de maior vulnerabilidade.

COMO FUNCIONA?

O ReMaP analisará de forma integrada múltiplas bases de dados públicas, incluindo registros de nascimentos, óbitos, internações hospitalares, infraestrutura de serviços de saúde e processos de regulação. Por meio da aplicação de técnicas sofisticadas de ciência de dados, como inteligência artificial e aprendizado de máquina (machine learning), o projeto identificará padrões, tendências e pontos críticos na rede de atenção materna e perinatal.

O ReMaP aposta em uma abordagem inovadora: utilizar ciência de dados e inteligência artificial para identificar gargalos e pensar em conjunto com gestores soluções específicas para cada região. A análise integrada de grandes bases de dados estaduais e nacionais (como SINASC, SIM, CNES, SIHSUS, CETESB e IBGE) permite construir intervenções mais eficazes.

Os resultados serão apresentados em painéis visuais interativos, atualizados em tempo real, que oferecem informações claras, precisas e acessíveis a gestores, pesquisadores e à sociedade em geral. Dessa forma, o ReMaP promove transparência e fornece subsídios essenciais para decisões estratégicas, impulsionando a melhoria contínua do cuidado materno e neonatal em todo o Estado de São Paulo.

QUER ACOMPANHAR DE PERTO?

Todas as etapas, dados, análises e resultados do projeto são disponibilizados de forma transparente e aberta no site do Observatório Obstétrico Brasileiro. Qualquer pessoa da comunidade científica à população em geral, pode acessar essas informações e acompanhar o avanço das ações.

Essa iniciativa une o rigor da ciência à sensibilidade da causa: porque nenhuma mulher deve perder a vida por exercer o direito de ser mãe. Mais do que um projeto, o ReMaP é um chamado à ação para a sociedade, os gestores e os profissionais de saúde.

Salvar vidas maternas não é uma opção, tampouco apenas uma meta: é um dever ético, humanitário e inadiável.

Referências 

BRASIL. Ministério da Saúde. Departamento de Informática do SUS – DATASUS. Sistemas de Informação em Saúde. Disponível em: https://datasus.saude.gov.br/. Acesso em: 09 jun. 2025.

BRASIL. Ministério da Saúde. Rede Alyne: conheça a história da jovem negra que deu nome ao novo programa de cuidado integral à gestante e bebê. Portal Gov.br, 08 set. 2024. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2024/setembro/rede-alyne. Acesso em: 09 jun. 2025.

FRANCISCO, R. P. V.; LACERDA, L.; RODRIGUES, A. S. Obstetric Observatory BRAZIL – COVID-19: 1031 maternal deaths because of COVID-19 and the unequal access to health care services. Clinics (São Paulo), São Paulo, v. 76, e3120, 28 jun. 2021. DOI: https://doi.org/10.6061/clinics/2021/e3120.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Preventing maternal deaths: the case of Alyne da Silva Pimentel v. Brazil. Geneva: WHO, 2012. Disponível em: https://www.ohchr.org/sites/default/files/Documents/HRBodies/CEDAW/Articles/Alyne/BrazilCaseStudy.pdf. Acesso em: 09 jun. 2025.

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